Drosófila de asa manchada (Drosophila suzukii Matsumura)

A drosófila de asa manchada (Drosophila suzukii Matsumura) é uma pequena mosca originária do sudeste asiático, introduzida na Europa a partir de 2008, expandindo-se por todo o continente num curto espaço de tempo. Está classificada na Lista A2 da OEPP como praga de quarentena. Este inseto exótico constitui uma praga capaz de provocar elevados prejuízos em variadas culturas frutícolas.
Parece preferir pequenos frutos de cutícula fina, como morangos, cerejas, framboesas, amoras, mirtilos e uvas. No entanto, ataca também pêssegos, damascos, ameixas e outros frutos, incluindo os de plantas silvestres (amoras das silvas, baga de sabugueiro, medronhos…) e ornamentais (Cotoneaster, Crataegus…).

Comportamento

No seu comportamento alimentar e reprodutivo, distingue-se das outras drosófilas, também chamadas moscas do vinagre, por ter a capacidade de atacar os frutos sãos, em início de maturação e de neles inserir os ovos. A postura e o desenvolvimento das larvas, além dos prejuízos diretos que causam, favorecem a contaminação dos frutos por bactérias e fungos, acelerando o seu apodrecimento e perda.

Imagens identificativas

Fig. 1. Fêmea adulta de Drosophila suzukii, mostrando o aparelho ovopositor caraterístico da espécie. (o tamanho natural é de cerca de 3 mm – imagem próxima do natural no canto superior esquerdo)

Fig. 2. Adulto macho de Drosophila suzukii, vendo-se as manchas caraterísticas na extremidade das asas. Imagem muito ampliada (o tamanho natural é de cerca de 3 mm – imagem próxima do natural no canto superior direito)

Fig. 2.1.Larvas de D. suzukii (imagem muito ampliada).

Fig. 2.2. Pupas no exterior de cerejas (imagem próxima do natural)

Fig. 3.1. Sintomas em cerejas do ataque das larvas de D. suzukii

Fig. 3.2. Medronhos destruídos por D. suzukii (ambas as imagens em tamanho próximo do natural)

Fig. 4.1. A podridão acética nas uvas pode ser induzida pelo ataque de Drosophila suzukii

Fig. 4.2. Armadilha artesanal muito eficaz na monitorização e na captura massiva de Drosophila suzukii

Biologia

Os adultos de Drosophila suzukii

Têm o aspeto de uma mosca do vinagre, de 2,6 a 3,4 mm, sendo a fêmea (Fig. 1-1) ligeiramente maior que o macho. O macho possui uma mancha escura na extremidade de cada asa (Fig. 1-2). A fêmea possui um ovopositor de maiores dimensões e mais fortemente denteado que o de outras drosófilas, o que lhe permite perfurar a cutícula dos frutos sãos e inserir os ovos sob a epiderme.

Os ovos

Eclodem ao fim de 1 a 3 dias, dando origem a larvas (Fig. 2-1), que se irão desenvolver num período que varia entre 3 e 15 dias. De seguida, as larvas evoluem para pupas, por vezes no exterior dos frutos (Fig. 2-2), de onde emergirão os adultos, dando assim origem a uma nova geração. A temperatura ótima de reprodução desta espécie situa-se nos 25 ºC. As temperaturas mais desfavoráveis situam-se abaixo de 13 e acima de 28 ºC.

As fêmeas

Vivem 3 a 9 semanas e produz em média 380 ovos durante a vida. O seu período de vida é mais prolongado durante o inverno. Ao longo do ano podem ocorrer até 15 gerações, conforme as temperaturas. Potencialmente, uma única fêmea poderia dar origem a milhares de milhões de descendentes num só ano, caso a Natureza não dispusesse de eficazes mecanismos de controlo de uma tal proliferação. Esta capacidade de reprodução rápida e a capacidade de voo dão à drosófila um forte potencial de dispersão local, vários quilómetros em redor. Frutos contaminados com ovos ou larvas de D. suzukii asseguram a dispersão da praga a longas distâncias.

A população

Os níveis na primavera dependem das condições meteorológicas do inverno anterior. Muitos dias ou semanas de frio intenso causam elevada mortalidade. As fêmeas resistem melhor ao frio que os machos e por isso são mais numerosas na primavera seguinte. A população desenvolve-se fortemente na primavera, vai aumentando progressivamente durante o verão, com flutuações devidas a condições de calor e secura. No outono, tem novo pico de desenvolvimento, recomeçando então a decair. À aproximação do inverno, os adultos deixam de se reproduzir (diapausa reprodutiva), sob o efeito da diminuição do foto-período (horas de luz solar) e das temperaturas. Nessa altura, sobretudo depois da queda da folha, os adultos concentram-se em abrigos diversos perto dos pomares. Condições de secura durante o verão diminuem a atividade do inseto. Temperaturas superiores a 25 ºC e humidade relativa do ar inferior a 60%, também lhe são desfavoráveis. A drosófila de asa manchada prefere os locais ensombrados e frescos para viver.

Hospedeiros

Os hospedeiros da drosófila de asa manchada são muito numerosos, entre plantas cultivadas alimentares e ornamentais, silvestres ou semi-silvestres.

Nota: esta lista não é exaustiva, mas apenas exemplificativa.

Fruteiras
alimentares
Plantas
ornamentais
Plantas silvestres
ou semi-silvestres
morango, amora, framboesa, mirtilo, cereja, pêssego, damasco, figo, uvas, diospiro, kiwi,
groselha, tomate, maçã, pera, nashi, baga de sabugueiro, medronho
Cotoneaster, uvaespim, azevinho, loureiro-cerejeira, folhado, Skimmia,
Crataegus, etc..
medronheiro, silva, morangueiro silvestre, escalheiro, amieiro, sanguinho, árvore-doparaíso, azereiro, madressilva, erva tintureira, azevinho

Prejuízos

A perfuração dos frutos pelas fêmeas, a postura e o desenvolvimento das larvas, levam à destruição da polpa, ao colapso dos frutos e à sua consequente perda (Fig. 3).
Além dos prejuízos diretos, infeções secundárias de fungos ou bactérias aceleram a destruição dos frutos. Esta destruição dá-se em grande escala, podendo facilmente perder-se toda a produção de morangos, cerejas, mirtilos, medronhos, uvas e outros frutos pequenos.
Ataques de Drosophila suzukii nas uvas, facilitam o desenvolvimento de bactérias causadoras da podridão acética (Fig. 4-1), levando à perda da produção, em qualidade e quantidade, como temos observado na Região dos Vinhos Verdes nos últimos anos.

Deteção e monitorização da praga

O método mais eficiente para detetar a presença da praga no local e acompanhar a sua evolução é a captura de adultos com recurso a armadilhas, semelhantes às utilizadas na captura massiva adiante descritas (Fig. 4-2).
Devem colocar-se duas armadilhas por pomar ou por parcela, distanciadas uns metros, uma no interior e outra na bordadura.
O conteúdo deve ser vertido para um recipiente (bacia, tabuleiro) e procurar aí as moscas D. suzukii. Os machos são facilmente identificáveis pelas manchas nas asas, a olho nú ou com uma lupa de aumento ligeiro(3 a 5 X). As fêmeas só são identificáveis à lupa binocular, o que tornará necessário recorrer a um serviço especializado de confiança (DRAPN, Universidades e escolas agrícolas).

Medidas preventivas

A drosófila de asa manchada é de difícil combate. Por isso, é necessário por em prática diversas medidas simultâneas e conjugadas. As medidas preventivas são muito importantes, ao permitirem limitar o desenvolvimento incontrolado das populações e melhorar a situação geral nas culturas, no que respeita a este inimigo.

  • As regas devem ser reduzidas ao necessário e localizadas (gota-a-gota, de preferência);
  • Deve evitar-se a existência de água estagnada no interior dos pomares.
  • É necessário garantir uma boa circulação do ar no interior da cultura. Para isso, fazer podas em verde, (mirtilo, framboesa), retirar as folhas velhas (morangueiro), manter os enrelvamentos cortados, tanto ao ar livre, como em culturas sob abrigo, evitar a colheita de frutos muito maduros.
  • Todos os frutos não colhidos ou caídos devem ser retirados, pois podem ser fonte de infestação.
  • Todos os frutos rejeitados devem ser apanhados, para sacos de plástico ou bidões bem fechados e de seguida colocados em pleno sol. A fermentação que se desenvolve destrói todas as larvas e ovos da drosófila. Ao fim de uma semana, o conteúdo dos sacos e bidões pode ser despejado no solo e coberto com terra, sem perigo de disseminação.
  • Os frutos colhidos podem passar pelo frio, metendo-os na câmara frigorífica durante 24 a 72 horas, entre -10C a +20C. (Convém, no entanto, experimentar previamente esta técnica com algumas caixas de fruta, tendo em conta que frutos como morangos ou framboesas são muito delicados e podem ser danificados pelo frio).
  • Em caso de ataques graves em estufa, esta deve ser fechada o melhor possível, durante uma hora por dia, no período de maior calor, mas apenas depois da colheita total dos frutos. A elevada temperatura assim conseguida no interior da estufa, destruirá os ovos e larvas de drosófila e mesmo parte dos adultos que lá tenham ficado.
  • Devem ser eliminadas da vizinhança, tanto quanto possível, as plantas hospedeiras alternativas.

Captura massiva

Trata-se de um método de luta direta, consistindo na colocação de um mínimo de 80 a 100 armadilhas com atrativo alimentar, por hectare. Não foi ainda apurado nenhum atrativo considerado de eficácia ótima. O que melhores resultados tem dado é constituído por 1/3 de vinagre de cidra, 1/3 de vinho e 1/3 de água (VVA), a que se juntam umas gotas de detergente sem perfumes (e 5 gramas de açúcar por armadilha, eventualmente).
As armadilhas artesanais podem ser feitas com garrafas plásticas de água ou sumos, em que se fazem uns 20 a 30 furinhos com 2 a 3mm de diâmetro, abaixo do meio da garrafa. Furos de pequeno diâmetro impedem a entrada de insetos de maiores dimensões, mantendo o atrativo limpo mais tempo.

Armadilhas

Devem ser colocadas à sombra, sobretudo na periferia dos pomares e algumas no seu interior, à altura dos frutos. Armadilhas de plástico vermelho ou pintadas de vermelho são consideradas mais eficazes.
Em culturas sob abrigo, as armadilhas não devem ser colocadas no interior, para não atraírem as drosófilas para dentro da cultura. Devem ser colocadas no exterior das estufas e outros abrigos, num local à sombra. A captura massiva deve ser praticada durante todo o ano, tendo em conta que os adultos estão sempre presentes e são atraídos às armadilhas, conseguindo-se, desta forma, a diminuição das populações.

Variedades resistentes

Por enquanto não existem. Algumas cerejas de variedades de cutícula branca parecem ser menos atacadas, sobretudo no início da maturação.

Tratamentos inseticidas

Estão homologados em Portugal alguns inseticidas para combate a D. suzukii. Estes deverão ser utilizados apenas em presença da praga, com o maior cuidado, como último recurso e respeitando
escrupulosamente o intervalo de segurança.
Em cerejeira, por exemplo, deve adotar-se a regra de não tratar as variedades de colheita precoce e em caso de necessidade, tratar as de colheita semitardia e tardia. Alguns ensaios têm mostrado reduzida eficácia dos inseticidas no controlo da drosófila.

Outros meios de luta

Está em curso em França e noutros países a procura de predadores e parasitoides naturais de Drosophila suzukii. No Japão existem parasitoides eficazes, mas a sua introdução na Europa, a ser viável, só virá a ter lugar após um período mais ou menos longo de estudos e experimentação.
Outras perspetivas estão em estudo, como a luta autocida com largadas de machos estéreis, tratamento dos frutos pelo frio, imediatamente após colheita, etc.

A drosófila de asa manchada é uma praga com grande capacidade de reprodução e de dispersão e de difícil controlo.
Não existe nenhum método, por si só, completamente satisfatório e eficaz para combater esta praga exótica. Por isso, é indispensável conjugar todos os meios de luta disponíveis e já experimentados, de modo a reduzir as populações nas culturas e nas suas imediações.

Comparação dos sintomas de Drosophila suzukii com os de outras moscas e riscos de confusão

Drosófila-de-asa-manchada
(Drosophila suzukii)
Mosca do Mediterrâneo
(Ceratitis capitata)
Mosca da cereja
(Rhagoletis cerasi)
Drosófilas comuns (frutos muito maduros ou danificados)
Nº de larvas/ fruto Diversas (por vezes, dezenas) Diversas (por vezes, dezenas) uma Column 5 Value
Localização das larvas Por toda a polpa do fruto Column 3 Value Column 4 Value Column 5 Value
Orifícios de saída das larvas do fruto Diversos Diversos um Diversos
Frutos atacados cereja, mirtilo, morango, amora, framboesa, pêssego, damasco, figo, diospiro, groselha, etc. pêssego, damasco, figo, diospiro, maçã, pera, laranja, tangerina, tomate, melão, kiwi, etc. cereja Todos os citados e outros
Risco de confusão com Drosophila suzukii Baixo Nulo Elevado

Fonte: DRAP Norte – Textos de divulgação técnica da Estação de Avisos de Entre Douro e Minho nº 01_2017 (II Série) (janeiro 2017).